Author Archives: beatrizmmaciel

Relevância do figurino para a performance

É interessante pensar sobre a relevância do figurino para a performance. Qual sua função? O que se busca com ele? O que pode se conseguir com ele? As perguntas e respostas não tem fim.  Podemos começar dizendo que “espetáculo não é figurino, não é cenário, não é ator, não é diretor, não é texto, não é poesia, não é nada! É o espetáculo, um todo conjunto” ( Gianni Ratto). Todos os elementos compõem juntos a performance. Um figurino que não tenha sido pensado pode gerar confusão nos expectadores. Como por exemplo, a interpretação do ator sendo alguém introvertido e tímido com uma roupa super extravagante, a não ser que tenha uma razão lógica no texto e no conceito do figurinista um figurino assim prejudicaria a performance como um todo.

Como já tratei anteriormente aqui no blog, foi-se atribuindo ao figurino a função de possibilitar a primeira significação do personagem, ele é a primeira informação que o expectador tem acesso, se tornando essencial para a apresentação artística. O figurino, por identificar mais facilmente a personagem, é o responsável mais direto por dar a medida das sensações, opiniões e postura da personagem.

“O figurino exerce a função de complementar e enriquecer as personagens. Por ser um atributo visual, ele materializa personalidades e carrega mensagens que muitas vezes não são ditas através de diálogos”. ( Carolina Puccini em Traje de Cena)

Para Carolina Puccini, sem um bom figurino o resto não se sustenta, tanto no cinema como no teatro.

Advertisements

O figurino de Schlemmer II

Oskar Schlemmer era escultor, pintor, bailarino e mestre do teatro da Bauhaus. O Ballet Triádico foi sua obra mais notória, e foi responsável por deixa-lo famoso por toda a Europa como artista da performance e da dança. Essa obra é considerada por muito como a primeira dança abstrata da história. Schlemmer estudou esses figurinos desde 1912 até sua primeira apresentação em 1922. E continuou por 10 anos a aperfeiçoar o figurino até sua última apresentação ainda vivo, em 1932 em Paris.

O figurino de Schlemmer é uma obra de arte, o corpo humano torna-se uma figura de arte que se movimento e se expressa. O bailarino tem seus movimentos delimitados pelo figurino e pelo espaço. E tanto o figurino, quanto o espaço e a própria música estão interligados nessa obra, que visa ser uma representação da “Arte Total”.  Abaixo podemos assistir a uma filmagem dessa performance, e observar a integração entre todos os elementos da performance, que tornaram essa obra geométrico-matemática tão famosa.

 

 

O figurino desenvolvido por Schlemmer não tem apenas caráter imagético, ele é um rígido segundo corpo que “sintetiza uma elaboração conceitual sobre movimento  no espaço e no tempo através de uma coreografia deduzida a partir das possibilidades que o figurino induz. Schlemmer dá ao figurino a potencialidade de determinar a composição musical, e somente a partir daí temos a coreografia e depois, por último, a dança” (BOCCARA in VIANA E MUNIZ, 2012).

Vale a pena conferir o vídeo, é uma obra de arte !

O figurino de Schlemmer I

Um marco na história do figurino foi o caso do Ballet Triadic de Oskar Schlemmer em 1922. Para Schlemmer o trabalho de criação da arte em cena era uma questão de equilíbrio matemático. Nesse ballet, o figurino colocava limitações aos dançarinos, ditando os movimentos possíveis ao corpo. Seu balé foi uma inovação na forma de se pensar figurino.

BALLET TRIADIC

ballet triadic

FONTE: http://continuo.wordpress.com/2011/04/28/juliet-koss-modernism-after-wagner-book-review/ 

Para Boccara o figurino de Schlemmer é mais do que uma sensação imagética é um:

“um rígido segundo corpo que sintetiza uma elaboração conceitual sobre o movimento no espaço e no tempo através de uma coreografia deduzida a partir das possibilidades que o figurino induz. Schlemmer dá ao figurino a potencialidade de determinar a composição musical, e somente a partir daí temos a coreografia, por último, a dança.” (BOCCARA in VIANA E MUNIZ, 2012, p.20).

Figurino ao longo da história II

Nos séculos XVII e VXIII surgem as primeiras bailarinas, até então apenas os homens da aristocracia e burguesia podiam dançar. Porém os figurinos de homens e mulheres possuíam limitações diferentes. Enquanto os trajes masculinos conferiam liberdade de movimentos, os femininos limitavam as bailarinas.

“Os trajes delas eram elaboradíssimos, tal qual a indumentária da época; os cabelos estruturas esculpidas como a das damas da sociedade, e seus vestidos eram compridos, armados por anáguas e sobsaias. Fora o incômodo estético, ainda havia o desconforto do preconceito da sociedade” (CRUZ in VIANA e MUNIZ, 2012, p.29)

Logicamente, as bailarinas não eram bem vistas na sociedade naquela época. Porém em 1730 as dançarinas La Camargo e Marie Sallé desbravaram as fronteiras dos bons modos das moças bem-nascidas. Elas também iniciaram uma revolução contra suas vestimentas impróprias para a dança. Camargo levantou a saia até metade da panturrilha e aboliu o salto alto. Sallé suprimiu os penteados exagerados e as máscaras utilizadas pelas bailarinas.

Através dessas mudanças, radicais para a época, foi possível observar o figurino influenciando a moda da época. As bailarinas viraram verdadeira febre, e as mulheres da corte foram se adaptando para seguir as tendências lançadas por elas. Embora isso tivesse que ser de certa forma a princípio, encoberto , pois havia muito associação da imagem da bailarina com a figura da prostituta e da cortesã. Mesmo assim, elas marcaram real presença no redesenho dos trajes burgueses, através de seus figurinos.

 

la camargo

LA CAMARGO – FONTE: CRUZ in VIANA e MUNIZ, LIVRO: “Traje de cena”  2012, P.29
NOTA: MARIE-ANNE CUPIS DE CAMARGO, 1880, EDMOND HÉDOUIN

“Quando Marie Sallé e La Camargo iniciaram as transformações nos trajes, a indumentária sofreu essa interferência também. Por exemplo, percebemos que a aristocracia começou a modificar aquelas monumentais perucas, introduzindo, ainda que empoados, penteados mais naturais. Os comprimentos dos vestidos passaram por uma transição, mostrando os tornozelos” (CRUZ in VIANA e MUNIZ, 2012, p. 30)

Essa transformação da moda foi uma das mais significativas para a história da indumentária, através dela podemos ver que a moda esta intimamente ligada aos fenômenos artísticos em uma relação bilateral. A moda influenciando o figurino e o figurino influenciando a moda.

Figurino ao longo da história I

 

O figurino se refere ao guarda-roupa da personagem, todas suas roupas e acessórios. Essa breve definição permite compreender melhor que objeto é esse, porém não abarca a complexidade do assunto.

Na dança e no balé, atualmente, o figurino tem por objetivo oferecer condições satisfatórias para o público identificar os personagens, de forma a facilitar a comunicação dos princípios do espetáculo em cartaz. Mas a prática da dança utilizava roupas do cotidiano até 1501, a partir de então é possível observar uma uniformização dos trajes se diferenciando das roupas do dia a dia. Os trajes passam a ser adaptadas para permitir mais movimentos, como o calção que teve seu comprimento ajustado para cima do joelho permitindo as flexões dos bailarinos. Tudo para privilegiar a performance do dançarino.

Nos ballets clássicos La Délivrance de Reunand (1619) de Jacques Patin e La Nuit (1653) de Berain, já é possível observar uma preocupação em transmitir uma mensagem sobre a subjetividade da personagem.  A uma preocupação em personificar as pessoas e os objetivos através de pequenas mudanças como tecidos, cores e elementos alegóricos.

 

rei sol

IMAGEM TRAJE DO REI LUÍS XIV – FONTE: MENDES in VIANA e MUNIZ, LIVRO: “Traje de cena”  2012, P.43 

NOTA: NO BALLET DE LA NUIT, 1653

 

A imagem acima se trata do traje do Rei Luís XIV, no Ballet de La Nuit. O rei também era conhecido como Rei Sol, e era o elemento central deste ballet, representando o Sol. Seu figurino reforçava sua imagem e magnitude dentro e fora do ballet.   Este Rei fundou a Academia Real de Balé a primeira academia relacionada a dança na França. Nessa época apenas os homens se apresentavam em público, interpretando também, os papéis femininos com uso de máscaras.

A entrada das mulheres nesse cenário será abordada semana que vem!

Até lá!

O surgimento do figurino

 

Vou começar este post com uma breve apresentação, pois passarei a fazer parte da equipe de autores do blog esse ano. Me chamo Beatriz e sou designer de moda, meu maior interesse dentro dessa área é o figurino, a possibilidade de se criar um personagem através de signos. Afinal, no ato do vestir-se não criamos sempre um personagem?

É muito complicado falar do surgimento de algo. Pois quando nos damos conta ese algo já está entre nós, existindo. E como são estudos históricos, nós usamos a ideia que temos hoje de figurino para encaixar nos hábitos de outras civilizações e dizer que eles usavam algo que nós podemos denominar figurino. Afora essa dificuldades vamos começar a analisar históricamente os primeiros sinais que temos dele, ou melhor, nos primeiros sinais aos quais nós atribuímos o valor de figurino.

Em 1891 foram encontradas na Austrália, imagens rupestres em grutas, que eram santuários de civilizações do período paleolítico, entre 17 e 50 mil anos atrás. Francisca Mendes (2012) comenta em seu artigo “ A DANÇA DO CORPO VESTIDO: UMA FORMA DE EXPRESSÃO E COMUNICAÇÃO”sobre quando poderia ter sido o surgimento do figurino.

imagens rupestres

IMAGENS RUPESTRES – FONTE: MENDES in VIANA e MUNIZ, LIVRO: “Traje de cena”  2012, P.40

Estas imagens são o registro humano mais antigo do uso de figurino. Os desenhos representam figuras humanas em movimento vestindo peles e outros adereços. A cerimônia representada parece ser a prática de uma dança religiosa. Mendes acredita que “os personagens das peças, desde os primórdios, precisavam ser representados e caracterizados por trajes” (MENDES, in VIANA e MUNIZ, 2002, p.40). E complementa:

“O homem sempre procurou adaptar recursos disponíveis em cada região e em cada época as suas necessidades de expressão. Percebe-se uma preocupação marcante com a utilização de objetos, formas, cores e texturas para representar ou personificar um determinado personagem durante a apresentação da dança envolvendo música, pantomima e acrobacias, conforme descrição de diversos autores entre eles: Paul Boucier, Luis Ellmerich, Miriam Garcia Mendes, Ferdinando Reyna, Edgard de Brito Chaves Junior, Luiza Lagoas, Dalal Achcar e Phillippe Beaussant.” (MENDES, 2012, p. 41)

O figurino também pode ser chamado de traje de cena. O termo “traje” tem sua origem etimológica na palavra trager, portuguesa que significa trazer para si. Esse algo que é trazido a si pode ser compreendido como uma identidade uma significação. O homem pós-moderno acredita que através das roupas é possível passar uma identidade para a sociedade. Vivemos a década das tribos urbanas misturadas em um plano geográfico e separadas no plano dos signos através de vestimentas e hábitos característicos.

Paradoxalmente, é através da cópia de símbolos, que o ser humano busca se diferenciar concretizando sua autoimagem representacional. Conforme Hoffman, “no caso da subjetividade na sociedade de consumidores, é a vez de comprar e vender símbolos empregados na construção da identidade”. São infinitas possibilidades de vir a ser que abrangem tanto o traje de cena como o traje em geral.  Aliás, é possível dizer quando o traje é de cena e quando não é? Quando é figurino e quando nao é?

Beatriz Maciel